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Bispo lança livro e desafia leis da Igreja

26/06/2008, por Por Jailson da Paz, Diário de Pernambuco

Há temas sobre os quais quase toda pessoa, seja católica ou não, gosta de se posicionar, alimentar discussões e polêmicas. Entre eles estão o celibato sacerdotal e o direito das mulheres celebrarem missas. Já o Vaticano costuma tratar os assuntos com certo cuidado. E poucas vozes da Igreja, nas últimas décadas, ousaram contribuir com o debate fora das paredes dos seminários e das cúrias. Mas o bispo emérito da Diocese de Nova Friburgo, dom Clemente Isnard (foto), resolveu derrubar tais barreiras. Aos 90 anos e reconhecido internacionalmente por seu trabalho no campo litúrgico, ele lança o livro Reflexões de um bispo sobre as instituições eclesiásticas atuais, que promete jogar lenha na fogueira. E não fala apenas do celibato e das mulheres, trata de um dos pontos quase intocáveis no Vaticano: a participação dos leigos na escolha dos bispos. O lançamento nacional foi na Igreja das Fronteiras, no bairro do Derby, em Recife (PE). Um sinal de reconhecimento ao trabalho feito por dom Helder Câmara.

“Fala-se tanto na falta de sacerdotes, nas paróquias sem padres, nos padres que se secularizaram deixando o ministério. E não se pensa nos padres de valor que se casaram e que poderiam ter continuado no ministério se a Igreja lhes tivesse concedido matrimônio”, argumentou o bispo emérito. Dom Clemente Isnard encontra justificativa para seu posicionamento na experiência. Foram mais de 30 anos à frente da Diocese de Nova Friburgo. E também no conhecimento histórico. Ele lembra que a exigência do celibato apareceu pela primeira vez por volta do ano 300, mas que ainda hoje as igrejas orientais católicas permitem que padres se casem. Segundo o religioso, a multiplicação dos diáconos permanentes é um sinal de que o padre casado seria bem aceito em muitos lugares. Os diáconos são homens casados ou celibatários que podem pregar, mas não estão autorizados a consagrar a hóstia e o vinho.

Dom Isnard recorre ao olhar de pastor para se posicionar em defesa das mulheres. “Em minha longa vida conheci padres incapazes de ser párocos e conheci também religiosas e leigas consagradas com capacidade de dirigir comunidades”, testemunhou. Para o monge beneditino, a dispensa do celibato não é uma mudança teológica, mas disciplinar. E sugere a necessidade de se analisar a Bíblia, quando São Paulo afirma que todos – judeu e grego, servo e livre, macho e fêmea – são iguais perante Deus. “Esse me parece um poderoso argumento bíblico em favor da ordenação de mulheres”, acredita.
As análises do autor se voltam também para a eleição dos bispos. “Em nossos dias o povo não é ouvido na eleição, mas pode se manifestar na hora do enterro”, afirma, lembrando que a participação dos leigos nas eleições era comum no primeiro milênio de existência da instituição. Essa prática foi caindo em desuso com a crescente interferência dos reis. Diante do que viveu e conhece, o bispo emérito defende que o ideal seria voltar ao regime do primeiro milênio, onde bispos, clero e povo participavam das escolhas.

O povo, exemplifica, seriam homens e mulheres engajados na Igreja, idosos e jovens, em número que expressasse as duas categorias. E conclui, de maneira incisiva, que a “descentralização das nomeações episcopais traria um alívio notável para as finanças da Sé Apostólica, uma vez que o pessoal da nunciatura não precisaria ser tão numeroso”. Coincidência ou não, dom Isnard contou que uma cópia do seu livro foi entregue ao núncio apostólico no Brasil antes da publicação e este teria pedido à Editora Paulus, com a qual estava outra cópia do texto, para não publicar a obra.

Ainda sobre os bispos, dom Isnard se pergunta como recuperar um episcopado zeloso, culto e avançado. Ele mesmo responde que na situação atual seria necessário um novo concílio ecumênico para
completar o Vaticano II, realizado entre 1962 e 1965 e responsável por mudanças na Igreja. Uma delas foi permitir a celebração das missas em diversas línguas, acabando com a ditadura do latim. Mesmo apontando o caminho, o bispo emérito acredita que dificilmente haveria mudanças hoje. Isso porque a Cúria Romana prepara e redige tudo.

Fonte: http://www.dpnet.com.br

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