Notícia

Entrevista com D. Clemente Isnard

26/06/2008

A dedicação de dom Clemente Isnard à Igreja Católica se aproxima de sete décadas. Nesse tempo ele assumiu diversas funções. Foi o primeiro bispo de Nova Friburgo, vice-presidente da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) e do Conselho Episcopal Latino-Americano (Celam), além de ter participado como padre conciliar de todas as etapas do Vaticano II e integrado comissões junto à Santa Sé. O bispo emérito conhece bem os caminhos da Igreja, especialmente no campo litúrgico. Parte desse conhecimento está no livro ‘Viver a liturgia’, no qual reúne uma série de reflexões. Na obra dom Clemente Isnard afirma que à medida que a idade vai chegando, sente-se mais livre para escrever o que pensa. “Gozando de plena liberdade, posso elogiar ou criticar também autoridades eclesiásticas sem considerar cargos ou pessoas”, salienta. Tal firmeza pode ser percebida nesta entrevista.

Por que escrever sobre temas polêmicos como o celibato e a escolha dos bispos?
DOM CLEMENTE ISNARD - Para dar meu testemunho como bispo para o povo.

E como surgiu a idéia da publicação?
DOM CLEMENTE ISNARD - Depois da missa de meus 90 anos, na Igreja das Fronteiras, no ano passado. Na homilia falei dos meus sonhos para a Igreja e, depois da celebração, padre José Comblin, da Paraíba, pediu para eu escrever. O livro é o resultado.

O senhor sofreu alguma pressão para não publicar o livro?
DOM CLEMENTE ISNARD - Quando o texto estava pronto, uma cópia foi tirada do meu computador sem minha autorização, indo parar nas mãos do núncio apostólico, dom Lourenzo Baldisseri, que pediu à Editora Paulus para não publicar o trabalho. O livro está saindo por outra editora, a Olho d’Água.

Alguma autoridade chegou a pedir diretamente para que o senhor desistisse?
DOM CLEMENTE ISNARD - Todos os bispos do Regional Leste 1, que reúne as dioceses do Rio de Janeiro, fizeram uma carta me pedindo para não publicar o livro. Eles alegavam que os assuntos poderiam ser mal interpretados e isso seria ruim para a Igreja.
Não teme repercussões negativas?
DOM CLEMENTE ISNARD - Meu Deus, acho que a discussão sobre esses temas somente fará bem. A Igreja é santa e pecadora. E a história mostra que as mudanças na Igreja demoram séculos. Talvez tenhamos que esperar um milênio, mas temos que ser insistentes. Com o livro, quero apenas conscientizar as pessoas.

E se o Vaticano chamar o senhor, como fez com Leonardo Boff nos anos 80?
DOM CLEMENTE ISNARD - Já estou velho, mas vou lá. Repito o que está no livro e outras coisas mais. Tudo farei sob à luz do Evangelho, que pediu para não nos comportarmos como fariseus.

O senhor pensa escrever outros livros desse tipo?
DOM CLEMENTE ISNARD – Sim, e penso em incluir um capítulo que, a princípio, seria publicado nas reflexões atuais, mas retirei por sugestão de um padre que fez análise do livro.

E de que tratava?
DOM CLEMENTE ISNARD - Nesse capítulo eu abordava a questão dos bispos auxiliares, tendo como fundamento experiências vividas em dioceses brasileiras.

* Bispo Emérito de Nova Friburgo, Rio de Janeiro

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