01/03/2010, por Rui Nogueira
Por falar em ato médico
Rui Nogueira
Tudo começa com um vestibular dificílimo. Quantos levam quatro anos para conseguir ultrapassar a barreira de entrada para a escola de medicina?
A habilitação para o exercício da profissão médica virá após seis anos de estudos intensos, isto num curso em que, notoriamente, os estudantes não conseguem exercer outras atividades e/ou ter um emprego para sustentar a sua sobrevivência.
Pois bem, mesmo ante tal preparo técnico há divulgação de erros médicos e que o exame do Conselho Regional de Medicina SP apresenta altos índices de reprovação atribuídos ao ensino deficiente.
É lamentável o encaminhar de assistência médica para um rumo de cinco minutos de consulta e cinco semanas de exames, levada pela transformação daquilo que deve ser um direito fundamental, a atenção à saúde, em mercadoria, colocando-a como algo que pode ser comprado.
E está, aí, bem presente, o complexo industrial médico para empurrar aparelhos, medicamentos desnecessários, variadas panacéias que vêm acompanhadas de vantagens e lucros diretos ou indiretos em geral acima dos razoáveis.
Vale lembrar que boa parte do proselitismo político e religioso é feito em cima de saúde, com as “curas” milagrosas ou não, em cenários teatrais, ou com os atendimentos que só funcionam em épocas eleitorais, com as distribuições atabalhoadas de medicamentos, como brindes e agrados. Existem até as “cirurgias” eleitorais. Que falar das indicações e os absurdos (felizmente alguns abandonados) como o de colocar pó de teia-de-aranha em umbigo de recém-nascido ou dar chá de “jasmim de cachorro” para crianças com sarampo?
Quantas morreram vítimas de uma “boa intenção” mal direcionada e despreparada?
Quantos engodos de falsas cirurgias e/ou falsas curas que atrapalham o processo de tratamento de tantos doentes?
Quem não conhece histórias de sérios agravamentos decorrentes de arremedos de curadores e falsos terapeutas que deixam aflorar em si os sentimentos de frustrado médico?
Uma parcela ínfima de pessoas nasce com algum problema de saúde (se não considerarmos o aspecto social) mas não nos ocupamos da prevenção e da promoção da saúde.
Toda a população tem a sua atenção voltada para as ações curativas e condicionadas para a crescente utilização dos meios diagnósticos e terapêuticos no bojo de gigantescos custos e lucros. É justo?
Alerta! O complexo industrial médico e as transnacionais dos medicamentos ao que parece não estão mais querendo permanecer sob a tutela de um receituário formal e profissional contando apenas com o “extra” da empurroterapia dos balcões de algumas farmácias ou as substituições feitas nas receitas pelos “B” “O” os produtos bonificados nas aquisições do comércio ao comprar um e ganhar mais um, dois ou três; além da auto medicação estimulada pelas propagandas de televisão.
Será seguro e/ou benéfico para a população a generalização de receitadores sem um correspondente aumento do seu preparo e ainda sem um pensamento de estimular a promoção da saúde?
Será justo que as pessoas comuns, de curso rápido de alguma técnica terapêutica possam sair por ai distribuindo à “larga mano” recomendações de tratamentos?
Isto faz a alegria dos laboratórios pelo aumento de suas vendas.
É bom lembrar que o importante para a medicina é o diagnóstico. O melhor tratamento do mundo não vale nada para um diagnóstico errado.
Estamos numa era de surrealismo, a ausência de decisões refletidas e começamos a temer que logo surja uma propaganda “dirigir carro é um dom das pessoas, todo mundo é motorista! Para que carteira?”