12/01/2010, por Roberto Requião
Do jornalista Luiz Carlos Azenha no blog Viomundo (www.viomundo.com.br):
O que o governador do Paraná Roberto Requião elegeu como discurso de
campanha não me parece exatamente uma novidade, mas tem sido articulado de
tal forma que poderá ter impacto muito maior que os discursos de Marina
Silva e Ciro Gomes na campanha eleitoral que se avizinha. É um tema difícil
? a economia ?, mas Requião tem sido feliz na forma como o apresenta.
Dificilmente o discurso de Requião ganhará a grande mídia, pois bate de
frente com os principais patrocinadores dela. Duvido que queiram "adotar" o
Requião, mesmo que ele tire votos da ministra Dilma: ele toca em questões
nevrálgicas para o modelo como existe hoje e como provavelmente será
preservado ? seja quem for eleito em 2010.
Por escrito, o discurso de Requião é o seguinte:
do site PMDB do Brasil
"O Brasil não pode continuar refém de quem mais errou: o Banco Central",
disse nesta quarta-feira (30) o governador do Paraná, Roberto Requião,
sobre a condução da política econômica brasileira marcada pelos juros
altos, os maiores do mundo, e a preferência pelo rentismo frente à
produção. Mesmo em tempos de crise, o Banco Central manteve a Taxa Selic
nos 8,75% ao ano, cortou o crédito aos pequenos e à produção, e agora
incentiva a entrada de capitais especulativos na intenção de flexibilizar o
câmbio e manter o consumo em alta.
"Atualmente, temos no Banco Central gente competente para cuidar da moeda,
mas sem nenhuma sensibilidade social, sem capacidade de montar um plano
agrícola, um plano viário, uma política de desenvolvimento ou uma política
econômica para o Brasil", disse Requião, pré-candidato do PMDB á
Presidência da República.
Precarização
"O Banco Central quer que nos tornemos uma China, com menos habitantes,
para vender ao mundo a precariedade do trabalho, o salário baixo, a
exportação de commodities. Hoje, a venda de minérios e grãos para a China é
o que sustenta nossa economia", completou Requião. Para Requião, termos
como Taxa Selic, Copom e spread já fazem parte do cotidiano brasileiro
embora poucos ainda atentem o quão nefasto é à produção nacional e aos
trabalhadores ficar refém das pragas econômicas criadas pelo neoliberalismo
e que ainda se perduram.
Spread
"Desde domingo (27), as agências de notícias divulgam que o spread
bancário, que é a diferença entre a taxa passiva e ativa dos bancos, custa
R$ 261,7 bilhões aos brasileiros e é o mais alto de 40 países com o mesmo
modelo", apontou Requião. Estudo da Fiesp mostra que se a diferença entre a
taxa de juros cobrada por bancos e financeiras e a taxa que eles pagam para
captar recursos (spread) seguisse os padrões internacionais, esse custo
cairia para R$ 71,5 bilhões, o que representa uma redução de R$ 190,2
bilhões.
"Isso significa um custo enorme à produção nacional, aos brasileiros,
inviabiliza novos investimentos e dificulta, sobremaneira, o aumento dos
salários. O estudo da Fiesp indica que spread equivale a 42,6% de tudo o
que é investido no Brasil em formação bruta de capital fixo e a 12,3% do
consumo das famílias. É mais uma praga do neoliberalismo", disse Requião.
Redução do crédito
O plano de governo do PMDB, segundo Requião, vai propor a redução do custo
de crédito no Brasil - um dos mais altos do mundo. "Só as grandes empresas,
bem relacionadas com estado brasileiro, conseguem linhas de créditos
satisfatórias. Enquanto isso, a parte mais importante da economia
brasileira, onde está a parte avassaladora dos empregos e onde gera a maior
parte do produto, as pequenas e médias empresas, estão carente de tudo, de
acesso à crédito, à tecnologia, à conhecimento", disse Requião.
As palavras de Requião se sustentam na análise do consultor Roberto
Troster, ex-economista chefe da Federação Brasileira dos Bancos. Troster
diz que a taxa média do custo de crédito para pessoa jurídica é mais de dez
vezes superior à americana e na pessoa física a diferença é ainda maior. E
que parte da causa das distorções está na falta de transparência e
flexibilidade do mercado de crédito no País. Para Troster, enquanto há uma
oferta rápida e generosa das linhas de crédito caras e demoradas, a oferta
de linhas baratas é travada.
Juros altos
Requião também não concorda com a taxa básica de juros (Selic), mantida em
8,75% ao ano. Juros altos, segundo Requião, significam retração na produção
e desemprego como efeito colateral. "Temos uma taxa de juros que continua
asfixiando a produção e a abertura de novos postos de trabalho", disse.
Outro ponto nessa conta é que mais da metade da dívida pública do governo
federal é indexada exatamente à taxa Selic. "Taxa alta, gastos de mais com
juros, e menor investimento em escolas, hospitais, habitação, segurança e
infra-estrutura". "Não podemos ficar reféns de 20 mil especuladores que não
estão dispostos a construir fábricas e gerar empregos, mas interessados em
realizar ganhos rápidos, donos de um capital tão volátil quanto éter, capaz
de ir embora com a mesma velocidade com que entra num mero clique da
internet", completa Requião.
Fonte: Luz Carlos Azenha